REALIZADA NA POSSE DA NOVA DIRETORIA DO CAPÍTULO DE SÃO PAULO EM MARÇO DE 2026
Ao receber a emergência do CBC, ainda com muito vigor para exercer o apaixonante ofício de cirurgião, onde ciência e arte coexistem de forma harmônica, permito-me fazer neste momento algumas reflexões dirigidas aos jovens cirurgiões que agora passa a fazer parte do nosso quase centenário Colégio.
Qual a missão de um cirurgião? Fazer o melhor para cada um de seus pacientes, agregando uma série de competências: conhecimento, experiência, habilidade, bom senso. Porém, é necessário que a todos esses predicados se adicione um rígido padrão de comportamento: dedicação, honestidade, ética, moral e a fundamental humildade, não só para reconhecer as próprias limitações, mas também para pautar o relacionamento com nossos pacientes, seus familiares e com todos aqueles que conosco atuam na nobre missão de cuidar das pessoas.
Infelizmente, vivemos um momento conturbado do ensino e da prática médica, sob vários aspectos:
- Mais do que dobramos o número de faculdades de medicina nos últimos 20 anos e hoje temos quase 500 faculdades abertas ou autorizadas pelo MEC, com gargalos intransponíveis para muitas delas, que são ter um corpo docente qualificado e o acesso a instituições de treinamento preparadas para o ensino. O que temos visto é um lamentável “engana que eu gosto”, isto é, enganando estudantes de medicina ao não lhes oferecer uma formação mínima adequada e eles, estudantes, por inexperiência ou necessidade interior, colocando suas aspirações de ser médicos acima da análise crítica de suas próprias faculdades. Aliás, os resultados do ENADE, embora um exame limitado, tornou pública uma situação que nós, da área médica, vimos denunciando há mais de uma década, que é a incompetência de novas faculdades de medicina para formar seus alunos, com mais de 30% das 351 faculdades envolvidas nesse exame recebendo notas mínimas em função do fraco desempenho de seus alunos.
Há anos, as principais entidades médicas advogam que, para se tentar controlar o estrago já feito e impedir ou, pelo menos, dificultar a expansão dessa aberrante situação, que os alunos sejam avaliados por exames de progresso e proficiência, assim como que as faculdades e as instituições de treinamento sejam avaliadas a acreditadas periodicamente por organismos independentes.
- O problema se amplia com o tema da residência médica. Há escassez de vagas e, também, desinteresse por elas, a ponto de 40% dos quase 600 mil médicos do país não terem tido sua formação aprimorada em programas de residência, aliás obrigatória em vários países do primeiro mundo para o exercício da prática médica.
- Para completar o ciclo da formação, existe hoje no Brasil o esdrúxulo sistema de dois critérios para se obter o título de especialista, contra aquilo que se pratica em todo o mundo: o título outorgado pelas sociedades de especialidade (o CBC confere o título de especialista em Cirurgia Geral), na grande maioria das vezes através de provas e com altos índices de reprovação em quase todas as especialidades, e o RQE, automaticamente conferido pelo MEC para qualquer um que completa um curso de residência por ele autorizado, independentemente da qualidade efetiva do programa e da capacitação ao término da residência.
- Do ponto de vista de atendimento médico, existe um real problema quanto à escassez e má distribuição de especialistas no Brasil. Contudo, a solução proposta tem sido de aumentar o credenciamento do número de programas de residência médica, sem a devida comprovação de que eles têm condições para formar bons especialistas.
- Para finalizar estas reflexões, existe o tal mercado de trabalho, que nem sempre propicia as melhores condições de trabalho e de remuneração, sendo o médico o elo fraco do custo crescente da Saúde. Um dado interessante é que mais de 60% dos médicos do estado de SP dão plantões, sendo que 60% deles de forma presencial, 70% dando 1 ou 2 plantões por semana e 26% 3 a 5 plantões semanais! Isso mostra a dificuldade de muitos especialistas se colocarem no mercado como o desejado.
Caríssimos jovens colegas: faço essas considerações baseadas em constatações, não para desanimá-los, mas para estimulá-los a manter sempre aceso o espírito de fazer o melhor para seus pacientes, apesar dos percalços. Ser bom cirurgião, é questão de alma, de estado de espírito.
Um depoimento: fui agraciado com a felicidade por ter optado por dedicar minha vida profissional à cirurgia. Com a cirurgia e a vida universitária, aprendi o que para mim virou um dogma: enquanto ensino, aprendo e, quando aprendo, tenho que ensinar! E é isso que fazemos no nosso dia a dia, nas enfermarias e no Centro Cirúrgico, nosso santuário.
Caríssimos jovens cirurgiões: que esse novo passo em suas carreiras seja o prenúncio de uma longa e estimulante vida. Seguramente, irá acontecer, se é que já não acontece, o que foi parte de toda minha vida: privações, inclusive do convívio familiar, pela causa maior, nossos pacientes.
Texto enviado pelo TCBC Raul Cutait










